Uma tarde agradável em Berlim para entender a escalada de horror do nazismo

Berlim figura na seleta lista de cidades cosmopolitas que agregam todas as possibilidades de passeios em uma só viagem. A capital da Alemanha, no entanto, naturalmente é mais lembrada pelos fatos históricos. Ou, especificamente, pelo muro que separou a cidade por 28 anos. Bom, mas antes da divisão veio a Segunda Guerra Mundial, que foi provocada pela pretensão dos nazistas de formar um império, que só foi possível pela ascensão de Adolf Hitler ao poder.

Hoje, todos sabemos os horrores e o rastro de destruição deixados pelo nazismo. Porém, nada ocorreu da noite para o dia, mas por conta de inúmeras situações que foram legitimadas pela população. Hitler não virou um ditador repentinamente. Ele foi normalizado com um discurso nacionalista e de resgate do povo alemão que abriu caminho para um dos regimes mais sanguinários da história.

Acredito que não preciso perder tempo para lembrar das atrocidades de Hitler nem elencar os motivos para sentir nojo dele. O motivo desse post é mostrar como em apenas uma tarde em Berlim – sem pressa e batendo perna – é possível entender como a escalada de horror foi possível. No nosso caso, o dia de céu aberto e temperatura amena tornaram a andança mais agradável e o soco no estômago maior. No final, ficou só uma pergunta: como deixaram chegar a tal ponto?

O Portão de Brandemburgo, um dos principais cartões postais da Alemanha, pode ser o ponto de partida para tentar buscar a resposta. Alguns passos, perto dali, está o Palácio do Reichstag. Imponente, o prédio foi palco de um dos eventos mais simbólicos para ascensão dos nazistas: o incêndio de fevereiro de 1933 que foi justificado por uma suposta ameaça de tomada de poder pelos comunistas. O episódio – possivelmente forjado – contribuiu para Hitler, que poucos dias antes havia sido nomeado como chanceler, ganhar protagonismo, até assumir de vez o poder com a morte do presidente Paul von Hindenburg em 1934.

Atravessando a rua, chegamos ao Tiergarten. O maior parque da capital da Alemanha tem um memorial das vítimas dos nazistas. Mais precisamente dos povos ciganos. Diversas placas mostram a cronologia da perseguição e do extermínio de povos, como Sinti e Roma. O total estimado de vítimas varia entre 200 e 500 mil. Aqui vale a observação da importância de aproveitar espaços públicos para lembrar os fatos mais nefastos da história.

Um pouco adiante, atravessando a rua novamente, fica o Memorial do Holocausto. São 2.711 blocos não uniformes que retratam os judeus mortos nos campos de concentração – um tipo de prisão para inimigos do regime que virou uma máquina de dizimar pessoas. O labirinto provoca reflexões de como a humanidade pode afundar tanto a ponto de consentir com tamanha crueldade.

A caminhada em seguida é um pouco mais longa, de cerca de 15 minutos, até os arredores da Potsdamer Platz. Mas o caminho é fácil. Basta seguir os resquícios preservados do muro cravados no chão para chegar no prédio chamado de Topografia do Terror. O edifício, antes, era a sede da Gestapo e o comando central da SS – as organizações nazistas mais temidas. Hoje, o museu mostra didaticamente, passo a passo, como a Alemanha saiu destruída da Primeira Guerra Mundial, tentou se organizar democraticamente, mas fragilizada economicamente foi seduzida pelo discurso de Hitler. A exposição reúne documentos, fotos, recortes de jornal, peças de propaganda e tantos outros arquivos. Tudo está ali, bem compreensível, a subida e a queda do nazismo.

Ao chegar ao final do tour, como destacado anteriormente, a pergunta persiste: como foi possível? Se fica impossível chegar a uma explicação compreensível, nos resta lembrar a lição de um painel do Campo de Concentração de Dachau: “Que o exemplo daqueles que foram exterminados entre 1933-1945 por resistirem ao nazismo ajude a unir as pessoas para a defesa da paz, liberdade e respeito ao próximo”.

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