Como é a visita ao Campo de Concentração de Dachau

Um gelado sábado de outono foi o dia que escolhemos para visitar o Memorial do Campo de Concentração de Dachau, nos arredores de Munique, na Alemanha. Mesmo bem agasalhados, o frio parecia aumentar à medida que avançávamos em direção ao local que presenciou uma das maiores barbáries da história da humanidade durante a Segunda Guerra Mundial.

>> Confira o vídeo da nossa visita a Dachau

 

O tour começou em uma viagem de trem que levou cerca de 25 minutos entre a estação de Hackerbrücke e Dachau. Em seguida, um ônibus que parte de um terminal ao lado da estação nos levou até à entrada do memorial. A quantidade de turistas e os sinais sonoros e visuais no interior do coletivo indicam que estamos prestes entrar em um antigo campo de concentração.

A visita a Dachau é gratuita e pode ser feita diariamente das 9h às 17h. Para percorrer todo memorial e não perder nenhum detalhe, a sugestão é logo na entrada adquirir um áudio guia por 3,50 euros. O equipamento pode ser configurado para o português de Portugal. A pronúncia das palavras soa um pouco diferente, com algumas expressões diferentes, mas nada que interfira na informação. Um plano de orientação, com um mapa bem instrutivo, auxilia na condução pela área.

trabalho liberta dachau

A “escola da violência” em Dachau

A triste história de Dachau começou no dia 22 de março de 1933, poucas semanas depois de Adolf Hitler ser nomeado chanceler do Reich. O campo de concentração foi o primeiro da Alemanha nazista e serviu de modelo para todos os outros que surgiram posteriormente. As instalações funcionavam como “escola de violência” para a SS, a polícia de Hitler. Trocando em miúdos, a truculência testada lá era exportada aos outros campos.

Por 12 anos, o número de pessoas presas disparou até fugir do controle. A estimativa é de que 200 mil pessoas ficaram concentradas em Dachau, sendo que mais de 40 mil foram assassinadas. O número pode ser ainda mais expressivo, já alguns povos eram completamente ignorados e não possuíam nenhum registro de identificação. O fim do sofrimento no campo de concentração teve início no dia 29 de abril quando tropas americanas libertaram os sobreviventes.

entrada dachau

A frase no portão que dá acesso ao campo de concentração, no edifício Jorhaus, aponta de cara o cinismo nazista. “Arbeit macht frei”, ou “O Trabalho Liberta” na tradução, servia para o Exército de Hitler disfarçar o que acontecia em Dachau e nos outros campos. A propaganda era que os locais serviam para regenerar os prisioneiros que em troca trabalhavam pelo desenvolvimento alemão. Quando na verdade os perseguidos eram submetidos a serviços pesados, condições precárias, torturas e execuções.

Painéis espalhados no começo da visita apresentam a vista geral do campo de concentração. O áudio guia ajuda a entender quais foram as modificações do recinto, como era a chegada dos prisioneiros ao campo, como funcionava a área do comando e a história do recinto das SS.

Logo após o edifício Jorhaus funcionava o pátio de chamada. Dalí os prisioneiros que chegavam entravam no Edifício de Intendência onde passavam por toda a triagem. O atual prédio transformado em museu conta toda história do campo de concentração e do regime nazista. Cartazes, fotografias, vídeos, objetos expostos, mobílias, tudo isso é usado para ilustrar o período sangrento.

Museu conta a crueldade contra os prisioneiros

O museu ocupa boa parte do tour e merece ser explorado com muita atenção. O contexto histórico explicado em cartazes ajuda a entender a transformação que a Alemanha passou após a Primeira Guerra Mundial e os caminhos que culminaram para a ascensão de Adolf Hitler, a perseguição aos judeus e a explosão da Segunda Guerra Mundial.

Em seguida, a vida de alguns prisioneiros que passaram por Dachau é contada. Pessoas que levavam uma vida tranquila foram tiradas do convívio social e nunca mais voltaram. Muitos vestígios, como documentos e fotografias podem ser vistos no museu.

A polícia nazista usava o Edifício da Intendência para classificar os prisioneiros. O desenho no uniforme e a cor do desenho indicava se eram judeus, comunistas, sérvios, ciganos, gays ou “seres imprestáveis”, como mendigos.

presos dachau

Uma das partes dolorosas da visita retrata as torturas que os prisioneiros eram submetidos. Uma chamada sala do banho na verdade era cenário de terror e resistência.

Dachau era palco ainda de experimentos abomináveis. Os médicos da força aérea alemã colocavam prisioneiros em câmaras de baixa pressurização para descobrir os limites humanos. Outros passavam por experimentos de congelamento e cobaias eram infectadas com as mais variadas doenças. Todos esses execráveis testes serviam para desenvolvimento de novas armas e medicamentos para serem usados nos campos de batalha.

O ápice do horror no museu curiosamente é quando imagens da libertação dos prisioneiros são exibidas. Vídeos feitos pelo exército americano retratam a situação degradante em Dachau. Se os corpos entulhados pelas valas rasas choca, a presença de pessoas quase inanimadas, mais parecendo mortos-vivos, causa profunda angústia.

libertação dachau

Na saída do museu, do lado direito está o “bunker”, onde os presos políticos ficavam em celas apertadíssimas, frias e sem iluminação. Já do lado esquerdo está a extensa área de barracões.

A degradação da vida humana nos anos de guerra

Os 34 barracões que ficavam espalhados pelo campo de concentração foram testemunhas da escalada da crueldade do regime nazista e da degradação da vida humana. Dachau inicialmente foi construído para abrigar 6 mil prisioneiros, mas só que as transformações entre 1933 e 1945 fizeram com que os espaços ficassem superlotados. Cerca de 30 mil pessoas estavam confinadas no local quando os americanos chegaram.

camas dachau

A situação foi piorando à medida que a Alemanha perdia a guerra. Mais pessoas eram mandadas aos campos de concentração e as condições de vida cada vez mais foram ficando insustentáveis. Dos 34 barracões, dois foram restaurados para visitação.

banheiro dachau

No fim do caminho entre a sequência de barracões foram construídos cinco memoriais religiosos representando a fé os prisioneiros que passaram e morreram em Dachau. São: o Memorial judaico, a Capela Agonia de Cristo, o Convento Carmelo “Sangue Sagrado”, a Igreja Evangélica da Reconciliação e a Capela Comemorativa ortodoxa russa.

memorial religioso dachau

barracões dachau

Após os memoriais, o trajeto leva o visitante às instalações de segurança, ao Monumento ao “Prisioneiro Desconhecido”, ao crematório e ao “Barracão X”. Parte deste canto era dedicado a prisioneiros soviéticos. Muitos deles foram mortos e cremados sem qualquer registro oficial.

novo crematório dachau

Uma construção perturbadora já no fim da visita representa o caminho que os prisioneiros levavam até a morte nas câmaras de gás. A sequência da sala mostra passo a passo que as pessoas eram levadas para um suposto banho. Na primeira parte elas deixavam as roupas, na outra ficavam aguardado, em seguida entravam na área dos chuveiros que na verdade espalhavam gás. Mortas, os corpos eram retirados e já levados ao crematório que ficava no salão adiante. O método não teria sido usado em Dachau.

câmara de gás dachau

crematório dachau

“Never again”

Conhecer Dachau é uma experiência que deveria ser obrigatória a todas as pessoas. Uma frase em um dos vários monumentos à memória dos que morreram ali resume o sentimento: “Nunca mais”. A humanidade precisa sempre voltar ao exemplo do que aconteceu em Dachau e nos outros campos de concentração para não cometer as mesmas barbáries.

never again dachau

Aqui vai um relato pessoal. Depois que saímos do memorial, eu e a Bruna praticamente não conversamos. Durante toda a visita trocamos poucas palavras, apenas ouvindo o guia e lendo os relatos.

A lição de Dachau está exposta em outro painel muito marcante: “Que o exemplo daqueles que foram exterminados aqui entre 1933-1945 por resistirem ao nazismo ajude a unir as pessoas para a defesa da paz, liberdade e respeito ao próximo”.

memorial dachau

Como chegar em Dachau

A maneira mais fácil de chegar ao Memorial do Campo de Concentração de Dachau é pegar em Munique um trem S2 na direção de Dachau/Petershausen até chegar à estação de Dachau. Depois de ter chegado na estação de trem Dachau, pegue o ônibus 726 em direção a “Saubach Siedlung” para a entrada do memorial (“KZ-Gedenkstätte”).

ônibus dachau

Um comentário em “Como é a visita ao Campo de Concentração de Dachau

  1. […] Aqui no blog já publicamos dois passeios que podem ser feitos a partir de Munique. Um deles é a dolorosa visita ao Campo de Concentração de Dachau. O local foi aberto no dia 22 de março de 1933, menos de dois meses após a chegada de Hitler ao poder. O campo ficou conhecido como onde o terror nazista fez escola e serviu de modelo para criados posteriormente. Conhecer Dachau é passar por um dos cenários mais tristes da história da humanidade (confira aqui o post completo). […]

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